Há quem passe a vida esperando o príncipe.
A figura polida, o gesto perfeito,
a promessa que brilha antes mesmo de existir.
O problema é que o brilho, muitas vezes, cega —
e não aquece.
Enquanto isso, o sapo fica ali.
Não canta promessas, não traz coroas,
não sabe encantar plateias.
Mas permanece.
Escuta quando o dia pesa,
sustenta quando a noite chega,
divide o chão quando o mundo parece escorregar.
Talvez a maior confusão da vida adulta
seja acreditar que amor precisa parecer história.
Quando, na verdade, ele se parece mais com rotina —
com presença silenciosa,
com café passado sem alarde,
com alguém que fica mesmo quando não há espetáculo.
O sapo não promete castelos.
Constrói abrigo.
Não encanta multidões,
mas aprende o mapa das tuas dores.
E, sem saber poesia,
reconhece o ritmo do teu cansaço.
Há quem busque o extraordinário
por medo do simples.
Quem confunda intensidade com profundidade,
ausência com mistério,
distância com valor.
Mas a vida não floresce no inalcançável.
Ela cresce onde há constância,
falha compartilhada,
onde alguém segura a mão
mesmo sem saber a direção.
Talvez o amor não seja
a metamorfose do sapo em príncipe,
mas o reconhecimento de que o sapo sempre foi amor —
antes do aplauso,
antes da fantasia,
antes do ideal.
E talvez a verdadeira escolha
não seja entre o encanto e a realidade,
mas entre esperar por quem nunca chega
ou enxergar quem sempre esteve.
Porque, no fim,
não é o conto que sustenta a vida —
é quem permanece
quando o conto termina.