há dias em que não sou
sou um vão
um corpo ocupado por ninguém

a nova cama não tem o contorno
de quem ainda habita o meu coração
os cantos da casa urram o silêncio
e até os relógios
marcam o tempo com desprezo

meus olhos sangram lembranças
minhas mãos tocam fantasmas
e o peito apodrece devagar
num ritual morno de ausência

meu filho sorri em fotos
que não sei mais se foram ontem
ou há milênios
minha mulher é sombra
que desliza pelos corredores da memória

e os cães…
os cães talvez já tenham esquecido meu cheiro

sou metade
e a outra metade
anda perdida por aí
em ruas onde não posso estar

não sinto meu propósito completo
longe do lar que me sustenta
da família que me dá nome
o mundo me fez estrangeiro da minha própria vida
e cada minuto longe
é uma faca que atravessa
lenta
cruel
precisa