abro a porta — tudo permanece imóvel
paredes respiram argamassa, não afeto
o ar estagnado pesa nos ombros
como se o tempo aqui não tivesse para quem seguir
nenhum pulmão divide o oxigênio comigo
nenhum riso pede espaço para nascer
cortinas observam sem olhos,
sofás guardam memórias que não podem mais ser
piso em silêncio — cada passo reverbera
num corredor que aprendeu a ecoar solidão
as luzes acendem, mas não iluminam rostos
apenas revelam a imensa ausência de vida
procuro reflexos, mas só encontro móveis
objetos de matéria inerte, fiéis ao eco
não há braços que envolvam
nem olhos que encontrem minha chegada
no relógio, segundos pingam, indiferentes
marcando horas que não se completam
sem o compasso de outras respirações
o lar vira casa: arquitetura e eco
sento e escuto o pulso da quietude
deixo o peito reconhecer a falta
e, mesmo sem calor humano,
recolho meus pedaços para continuar